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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

sábado, 10 de diciembre de 2016

Clarice Lispector - "Felicidade clandestina"



Maravilloso relato completo de la escritora brasileña Clarice Lispector. La pasión por la lectura y , como tantas veces en esta autora, mucho, mucho más, y en sólo tres páginas de un libro.

Nació el 10 de diciembre de 1920 y murió el 9 de diciembre de 1997. No hace falta ningún aniversario para (re)leer a Clarice Lispector, por supuesto, pero la recordamos en esta fecha de su nacimiento, y en portugués.


FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tran¬qüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Clarice Lispector


Hay una traducción española en Ciudad Seva, pero como tiene algunos errores y cosas que no me convencen, prefiero publicar aquí la versión en portugués.



(Fotografía de Polly Chandler)



viernes, 9 de diciembre de 2016

Roberto Carlos + Elis Regina - As curvas da estrada de Santos

Santos, población del estado de São Paulo


Más música brasileña hoy, por partida doble, meu caro Paco, y, además, Clarice Lispector mañana.

As curvas da estrada de Santos es una composición de Roberto Carlos y de Erasmo Carlos (sin ninguna relación familiar con él), interpretada por el primero y, a continuación, por la gran Elis Regina. Personalmente, gostos não se discutem, me parece mucho mejor esta última.




Roberto Carlos (1969)




Elis Regina





João Pernambuco - Sons de carrilhões




João Teixeira Guimarães (1883 - 1947) fue un compositor e instrumentista de guitarra brasileño, conocido como João Pernambuco.

El 4 de diciembre escuchamos otra obra suya, Graúna. Mais uma deleSons de Carrilhões, que escuchamos interpretada por Dilermando Reis en 1952.

En la Wikipédia en portugués, leemos lo siguiente (violão es guitarra en Brasil; y en Portugal dicen viola:

A santíssima trindade dos precursores do violão brasileiro é constituída por Quincas Laranjeiras, João Pernambuco e Levino Albano da Conceição e a obra violonística de João era de tal densidade e profundidade que a ela assim Villa-Lobos se manifestou:

"…Bach não se envergonharia em assinar os estudos de João Pernambuco como sendo seus…".





De una página española, 19 Trastes:


Nacido en Pernambuco, a los 12 años ya tocaba viola que aprendió de los músicos populares de la calle. A la postre, estas raíces en la música popular vinieron a condicionar su composición musical.

Trasladado a Río comparte su trabajo como herrero con el trato con los grandes guitarristas de la época, Sátir Bilhar y Quincas Laranjeira .

Los años 20 y 30 son su época de máximo explendor de los que datan todos sus composiciones, discos y conciertos por todo el país.

A finales de los 30 se va apartando de la música pública por desavenencias con su compañero Catulo da Paixão Cearense. dedicandose sólo a dar clases y pequeños conciertos muy esporádicos.

A pesar de apenas saber leer ni escribir, João Pernambuco tenía un enorme talento musical. Se conocen cerca de 50 temas suyos, entre canciones y composiciones para guitarra. Seguramente se han perdido muchas otras, a pesar de que Villa-Lobos se ofreció para transcribirlas a partitura, colaboración que rechazó.

Aún así, su obra es fundamental para la guitarra en Brasil.

Murió totalmente recluído en 1947.




Kirk Douglas - "The learning process continues..."

Kirk Douglas y Lola Allbright



"The learning process continues until the day you die."

Kirk Douglas


Happy 100th Birthday, Mr. Douglas!




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Blas de Otero - E.L.I.M.




E. L. I. M.

¿Adónde irá la luz cuando decimos
cierra los ojos, duerme, sueña, muere?

¿Adónde irá el amor cuando hace frío
y el alma es hielo y el recuerdo, nieve?

¿Adónde van las olas que veíamos
venir, subir, romper, desvanecerse?

No seas ola, amor, luz, libro mío.
Arde, ama, asciende siempre, siempre, siempre.

Blas de Otero


De Que trata de España (1964)




(Fotografía de Jorge Meis - Flickr)