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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

martes, 18 de diciembre de 2012

García Calvo y Pessoa

Fotografía de Zoe López

Releyendo el libro Canciones y soliloquios, de Agustín García Calvo, di con unos versos que me recordaron unas palabras del heterónimo pessoano Bernardo Soares, autor del Livro do Desassossego. Helos ambos reunidos (abajo el fragmento más largo del que extraje la frase)


Esas cortinas rojas
de la ventana de tu cuarto
y esa luz que nos hacen,
Masyuá, ya desde ahora
las estoy viendo
convirtiéndose en pasto
de la memoria
de los días de soledad que vengan

XXXIII, in Canciones y soliloquios (Agustín García Calvo) Editorial Lucina, Zamora, 2ª ed. 1982



O patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei que hei de ter então. 






O patrão Vasques. Tenho, muitas vezes, inexplicavelmente, a hipnose do patrão Vasques. Que me é esse homem, salvo o obstáculo ocasional de ser dono das minhas horas, num tempo diurno da minha vida? Trata-me bem, fala-me com amabilidade, salvo nos momentos bruscos de preocupação desconhecida em que não fala bem a alguém. Sim, mas por que me preocupa? É um símbolo? É uma razão? O que é?

O patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei que hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não ter feito, desculpas diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim. Ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado com a ralé dos que se julgaram gênios e não foram mais que mendigos com sonhos, junto com a massa anônima dos que não tiveram poder para vencer nem renúncia larga para vencer do avesso. Seja onde estiver, recordarei com saudade o patrão Vasques, o escritório da Rua dos Douradores, e a monotonia da vida quotidiana será para mim como a recordação dos amores que me não foram advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus.



2 comentarios:

Paco Campos dijo...

¡Qué grande era Pessoa...! Más que grande, era inmenso como un océano.

Obrigado

Paco Campos

El transcriptor dijo...

E o prazer de o ler em português, amigo!


Cumprimentos