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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

sábado, 19 de octubre de 2013

Maria Bethânia - Lamento no morro + Monólogo de Orfeu



Cien años del nacimiento de Vinícius de Moraes (19-10-1913). Última entrada en el día de hoy dedicada a Vinícius. Vuelve Maria Bethânia con su disco Que falta você me faz, integrado por canciones del poeta carioca. Primero, la canción; después, el recitado. La música, de Tom Jobim, naturalmente.

Uno no puede nunca dejar de escuchar el Monólogo de Orfeu en la voz de Maria Bethânia sin sentir un escalofrío.


LAMENTO NO MORRO

Não posso esquecer
O teu olhar
Longe dos olhos meus

Ai, o meu viver
É de esperar
Pra te dizer adeus

Mulher amada
Destino meu
É madrugada
Sereno dos meus olhos já correu

* * * * * * *

Orfeu:
Ai, que agonia que você me deu
Meu amor! que impressão, que pesadelo!
Como se eu te estivesse vendo morta
Longe como uma morta...

Eurídice:
Morta eu estou.
Morta de amor, eu estou; morta e enterrada
Com cruz por cima e tudo!

Orfeu (sorrindo):
Namorada!
Vai bem depressa. Deus te leve. Aquí
Ficam os meus restos a esperar por ti
Que dás vida!

(Eurídice atira-lhe um beijo e sai).

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais porque te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, - que é que eu sei! essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem - nada disso tem importancia
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! e me dizes essas coisas
Que me dão essa fôrça, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existencia
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que êle, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!






Musical 'Orfeu' de Vinicius de Moraes estreia em nova montagem no Rio de Janeiro (2010) *


2 comentarios:

Paco Campos dijo...

Genial la descripción que hace Vinicius (en las sesiones de la Fusa) de la voz y de la forma de cantar de María Bethania: tiene una forma de cantar caliente, como un árbol que se está quemando.
Sin embargo, en mi modesta opinión, creo que empastaba mejor la voz de María Creuza con Vinicius y Toquinho, la de María Bethania es más de solista.

Paco

El transcriptor dijo...

Bueno, era un poeta, bella imagen. Bethânia es un volcán, con una voz tal que, como vienes a decir, creo, exige la soledad del solista.