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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

domingo, 3 de mayo de 2015

Eugénio de Andrade - "Poema à Mãe"

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POEMA À MÃE

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
                                      Era uma vez uma princesa
                                      no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade
(1923-2005)


Os Amantes sem Dinehiro (1950)


Eugénio de Andrade en español en A media voz


En portugués en  Citador




2 comentarios:

Albino M. dijo...

Muito lindo. Mas os seus leitores merecem este:
http://ruadaspretas.blogspot.pt/2009/02/eugenio-de-andrade-pequena-elegia-de.html

El transcriptor dijo...

Muito agradeço, e aproveitarei, a sugestão, Albino.

Bom domingo!