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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

miércoles, 15 de junio de 2016

Ana Cássia Rebelo - "Dezassete segundos"




DEZASSETE SEGUNDOS

Há uma aldeia em Goa que se chama Nuvem. Nessa aldeia, vive Fidélia, uma sinhá-moça que herdou duas fazendas em Paraíba, uma com quinhentos escravos, outra com setecentos e cinquenta. Fidélia demorou precisamente cem dias a atravessar o mundo para chegar a Nuvem. Não sabe por que veio, talvez para se livrar de Tristão e da herança, mas gostou da aldeia e ficou. Todos os dias acorda de madrugada, só para ver as mulheres sair da pequena igreja, depois de assistirem à primeira missa. Àquela hora do dia, a neblina matinal cobre o alçado do templo e as mulheres, apesar das pernas feias, corpos franzinos, com os seus longos cabelos negros, parecem-lhe estranhas fadas. Fidélia volta para casa às dez horas. Senta-se numa cadeira de baloiço e come o balchão de camarão que Rosa lhe prepara. Às vezes, depois de comer o balchão, sentindo ainda a boca ardente, passeia no jardim da casa. Observa as árvores, as aves e as flores. Espanta-se por serem tão diferentes das da sua infância. À tarde, quanto todos se deitam, Rosa, Maria e Pancrácio, o escravo que trouxe de Paraíba, Fidélia escuta os concertos de Brandenburgo, sobretudo o terceiro concerto, sobretudo o segundo andamento do terceiro concerto. Tem apenas dezassete segundos. Sentada na sua cadeira de madeira rosa, na mais completa solidão, no silêncio que nunca termina, Fidélia, a sinhá-moça de Paraíba, passa os dedos na boca ardente. Pensa então que a vida devia ser assim: ter exactamente dezassete segundos, ser um início, um suspiro, um curto lamento. Fidélia atravessou o mundo, viu fadas sair da igreja da aldeia, comeu balchão de camarão e escutou o segundo andamento do terceiro concerto de Brandenburgo. Não tem mais nada para fazer. Sente um enorme cansaço por ter tanta vida para viver.

Ana Cássia Rebelo en su blog ana de amsterdão









(Imagen: Diu e Goa)