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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

domingo, 31 de julio de 2016

Clarice Lispector - "Por não estarem distraídos"




Clarice Lispector tiene unas ocho entradas en este blog, pero quería contar una cosa en relación con ella; otro recuerdo de los años de formación… Llegó un día a Salamanca un profesor brasileño para hablar de Clarice Lispector a los cuatro gatos que hacíamos Portugués. Por supuesto, ninguno de nosotros sabía de su existencia. Para ilustrar su charla, nos dio unas fotocopias de tres breves relatos, que antes de ser recogidos en libro, habían sido publicados en la prensa diaria: Por não estarem distraídos, O estado de graça y A quinta história. Personalmente, quedé sorprendido, encantado, alucinado, no sé… Aquello era una maravilla. Tiempo después, en Lisboa, compré su primera novela, Perto do coração selvagem y un libro de cuentos, Felicidade clandestina. Era increíble, como seguí confirmando en el curso de los años con otras obras. ¡Qué peculiar manera de ver la de esta brasileña, nacida en 1920 en Chechelnik, Ucrania, y bautizada como Chaya Pinkhasovna Lispector. Con dos años su familia llegó a Brasil, y Chaya se convirtió en Clarice

Como hay una pequeña parroquia de seguidores que sabe portugués o lo lee, se me ha ocurrido publicar más textos en esta lengua a partir de ahora, entre ellos los ya mencionados. Y Felicidade clandestina, y un fragmento de Os desastres de Sofia... Calma, empecemos por el primero, esta breve joyita, que además podemos escuchar con sotaque brasileiro.



POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.

No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.

Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


Clarice Lispector