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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

sábado, 30 de julio de 2016

Jorge de Sena - "E, todavia, eu não quisera amar-te"




E, todavia, eu não quisera amar-te.
Mas ter-te, sim, de todas as maneiras.
Quem és e como és, de quem te abeiras,
que dizes ou não dizes, pouco importa.

E muito menos hoje me conforta.
Neste sorriso que te dou tranquilo,
eu ponho num remorso tudo aquilo
que em fundo amor eu pudera dar-te,

se alguma vez te amasse de amor fundo.
Senta-te à luz do mar, à luz do mundo,
como na vez primeira em que te vi,
tão jovem, que era crime contemplar-te.
E despe-te outra vez, pois vêm olhar-te
quantos te buscam de saber-te aqui.

Sendo um de tantos, nunca te perdi.


Jorge de Sena


VI soneto de "Sete sonetos da visão perpétua", in Peregrinatio ad Loca Infecta (1969)





(Fotografía de Herbert Matter: Mercedes Matter Nude, Provincetown, circa 1940*)


2 comentarios:

POESIAS SENSUAIS E CONTOS dijo...

Expressivos versos. Parabéns

El transcriptor dijo...

Os parabéns para o autor, Jorge de Sena (1919-1978), claro, que, aliás, viveu uns anos no Brasil.


Cumprimentos