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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

viernes, 29 de julio de 2016

Pessoa / Campos - "Começa a haver meia-noite, e a haver sossego"



De la primera vez que estuve en Lisboa, en el ecuador de la carrera, recuerdo este poema del heterónimo pessoano Álvaro de Campos, leído en una residencia de la calle Casal Ribeiro, entre la Praça de Saldanha y el largo de D. Estefânia... Era el mes de julio, también. Fernando Pessoa había llegado para quedarse.


Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro-andar...
Não oiço já passos no segundo-andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —

Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel! — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me
O som de um portão que se fecha brusco dói-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa...

9-8-1934










Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944