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el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

viernes, 11 de noviembre de 2016

José Paulo Paes - "Ivan Ilitch, 1958"





IVAN ILITCH, 1958

Trrrim, bocejo,
Roupão, chinelos,
Gilete, escova,
Água, sabão,
Café com pão,
Chapéu, gravata,
Beijo, automóvel,
Adeus, adeus.

Gente, trânsito,
Sol, bom-dia,
Escritório,
Relatório,
Telefones,
Almoço, arroto,
Contas, desgosto,
Adeus, adeus.

Clube, vento,
Grama, tênis,
Ducha, alento,
Bar, escândalos,
Pedro, Paulo,
Mulher de Pedro,
Mulher de Paulo,
Adeus, adeus.

Lar, esposa,
Filhos, pijama,
Janta, living,
Jornal, cismares,
Tricô, vagares,
Hiato, ausências,
Bocejo, escada,
Adeus, adeus.

Quarto, cama,
Glândulas, êxtase,
Dois em um,
Dois em nada,
Dever cumprido,
Luz apagada,
Adeus, adeus.

Horas, dias,
Meses, anos,
Cãs, enganos,
Desenganos,
Vácuo, náusea,
Indiferença,
Cipreste, olvido,
Há Deus? adeus.

José Paulo Paes


Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.141-142.


José Paulo Paes (1926 - 1998), in Antonio Miranda.


"A vida vazia do homem, seja ele um burocrata na Rússia do século XIX, seja ele um escriturário brasileiro em 1958, como no poema de José Paulo Paes, seja ele um de nós, no início do século XXI, possui o vazio de quem não não refletiu radicalmente e por isso ainda não descobriu a sua condição de pessoa, realidade que confere sentido à vida e, portanto, à morte." (*)


Poema leído en el blog mar à vista da ilha