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el sabroso oficio / del dulce mirar Góngora – ¡Qué difícil es entender la belleza! Günter Eich

lunes, 23 de abril de 2018

José Eduardo Agualusa - 'A Rainha Ginga'



Escravos afadigavam-se em animar com palhas e troncos uma alta fogueira, cuja trémula luz se confundia com a do crepúsculo, essa hora entre lobo e cão, quando a vista ainda distingue as formas mas não as cores.


* * * * * * * * *

A vida é um labirinto de escolhas, dizia-me o meu pai quando eu era menino, Deus deu ao homem o livre-arbítrio. O homem escolhe ir para o Inferno ou para o Paraíso.

Eu fizera uma escolha. O Paraíso deixara de ser para mim algo abstrato e remoto. O Inferno também. O Paraíso era ela e o ar que ela respirava, e o Inferno a ausência dela. A toda a volta só havia demónios.


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Pedro fez uma pausa no seu relato. Mirou-me, curioso, os olhos reluzindo de troça:

O senhor é o padre, não é? Os brancos estão irados consigo. Alguns querem queimá-lo e esses são os que mais o amam.

Atrás da minha casa cresciam altos pés de papaia. Mais atrás erguia-se uma pedra imensa. Eu gostava de me estender numa rede, olhando os pés de papaia, olhando a pedra e, acima da pedra, as nuvens correndo no céu. Além do azul não havia nada. Era o vazio infinito.

Hoje, ainda sinto uma vaga saudade de Deus sempre que me lembro daquele pés de papaia. Saudade de um mundo amparado pela presença de um pai. Viver sem Deus é uma responsabilidade muito grande, mas, como qualquer responsabilidade, faz-nos crescer.

José Eduardo Agualusa


O novo romance de José Eduardo Agualusa, A Rainha Ginga, conta a vida fantástica de Dona Ana de Sousa, a Rainha Ginga (1583-1663), cujo título real em quimbundo, "Ngola", deu origem ao nome português para aquela região de África.

É a história de uma relação de amor e de combate permanente entre Angola e Portugal, narrada por um padre pernambucano que atravessou o mar e recorda personagens maravilhosos e esquecidos da nossa história - tendo como elemento central a Rainha Ginga e o seu significado cultural, religioso, étnico e sexual para o mundo de hoje. (2014)

Quetzal Editores





Danilo Kiš - "Un hombre maduro ha sacado de los libros..."

Danilo Kiš


(...) un hombre maduro ha sacado de los libros todo lo que se puede sacar de ellos. Uno no puede llevar su biblioteca sobre su espalda, como un caracol. La única biblioteca personal del hombres es la que permanece en la memoria: la quintaesencia, el residuo.

Danilo Kiš


De su relato "El libro de los reyes y de los tontos", in Enciclopedia de los muertos, Acantilado, 2008.




Isabel Bono - el futuro acabará por llegar




el futuro acabará por llegar

malgastábamos el tiempo
ordenando en un álbum las fotos del verano
para mirarlas alguna vez con nostalgia

acumulábamos canicas piedras
libros cartas poemas

aplazábamos así la felicidad, la vida

todavía no sé por qué
todavía no sé para cuándo

Isabel Bono


De su libro Lo seco. Bartleby Editores, 2017.


"Isabel Bono solo habla por escrito", de Aloma Rodríguez en Letras Libres


vida extra, blog de Isabel Bono.



Gabriel Casas - Día del Libro, Barcelona (1932)









domingo, 22 de abril de 2018