.

.

.

el sabroso oficio / del dulce mirar GóngoraWie schwer es ist, die Schönheit zu begreifen! Günter Eich

lunes, 4 de marzo de 2013

Pessoa / Campos - "Nunca, por más que viaje..."

Estación de Santa Apolónia de Lisboa (Fotografía de Cláudio Márcio Lopes)


Nunca, por más que viaje, por más que conozca
el salir de un lugar, el llegar a un lugar, conocido o desconocido,
pierdo, al partir, al llegar, y en la línea móvil que los une,
la sensación de escalofrío, el miedo de lo nuevo, la náusea –
Aquella náusea que es el sentimiento que sabe que el cuerpo tiene el alma,
treinta días de viaje, tres días de viaje, tres horas de viaje –
Siempre la opresión se infiltra en el fondo de mi corazón.

30/11/1929 (Évora)

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos 


Poema traducido por El transcriptor



Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.


2 comentarios:

Paco Campos dijo...

es el mismo desasosiego que le producía a Pessoa desplazarse hacia un lugar en el que nunca estuvo antes, es decir: condenado a no moverte de la rúa dos Doiradores.
A mi mujer, impenitente viajera, no le entra en la cabeza tal reflexión.

Paco

El transcriptor dijo...

Pessoaera todo un mundo, y ese miedo a los viajes aparece reflejado en otros poemas de Campos. Parece comprensible, en cierta forma, que las personas a las que les gusta mucho viajar no entiendan ese miedo pessoano. Y es que todo cambia en nuestra ausencia.


LÀ-BAS, JE NE SAIS OÙ

Véspera de viagem, campainha…
Não me sobreavisem estridentemente!

Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago,
Antes de pôr no estribo um pé
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.
Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela?
Que importa?
Todo o Universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.

Sabe-me a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação…
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim,
Minha família abstracta e impossível…
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida —
"E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?" —
Ficar só a pensar em partir,
Ficar e ter razão,
Ficar e morrer menos …

Vou para o futuro como para um exame difícil.
Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?

Já me vejo na estação até aqui simples metáfora.
Sou uma pessoa perfeitamente apresentável.
Vê-se — dizem — que tenho vivido no estrangeiro.

Os meus modos são de homem educado, evidentemente.
Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vício vil.
E a mão com que pego na mala treme-me e a ela.

Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.

Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!…